Wilson Toresan Jr. é palestrante no XI Seminário Nacional de Perícia de Crimes de Trânsito e no XIII Seminário Nacional em Identificação Veicular. Nos eventos, que acontecem entre os dias 17 a 19 de outubro em Bonito (MS), ele participará da análise de crash tests que foram realizados em Campo Grande.

Nesta entrevista, o perito criminal no Rio Grande do Sul, doutor em engenharia e pesquisador em acidentes de trânsito, detalha um pouco sobre a importância que os crash tests representam para o trabalho da perícia no combate à violência no trânsito.

Qual o potencial na questão de capacitação que os crash tests podem ter para o treinamento dos peritos?

Wilson Toresan Jr. – Uma das teorias mais recentes da área da Educação indica que no “Ciclo de Aprendizagem” devem estar incluídos estudos teóricos e práticos do tema que se está trabalhando, permitindo aos estudantes (no caso os Peritos) utilizar suas experiências e conhecimentos prévios na solução das questões de suas atividades profissionais.

Os experimentos do tipo crash tests são oportunidades incríveis de simular acidentes de trânsito, com as variáveis do problema controladas, e praticar/verificar a eficiência das metodologias que se conhece na Reconstrução de Acidentes de Trânsito. Como resultado o estudante/profissional da área aprimora seus conhecimentos no campo da teoria e da prática.

Como a perícia atualmente tem auxiliado no combate à violência no trânsito?

Wilson Toresan Jr. – Os números das estatísticas de acidentes de trânsito são assustadores no Brasil, comparando-se a números de eventos de Guerra, que ocorrem em nosso planeta. O Ministério da Saúde tem publicado que, em média no Brasil, são 40 mil mortes anuais! E não estamos contando aqueles que sofreram lesões! Para resolvermos este grave problema, é necessário compreender os fatores que contribuem para que este fenômeno ocorra. O papel da perícia é reconstruir os acidentes de trânsito, utilizando-se de conhecimentos científicos, apontando os fatores humano, viário, ambiental e veicular que contribuíram para que o evento tenha ocorrido, auxiliando as campanhas de educação, os projetos de engenharia viária/veicular e auxiliando a Justiça.

Diante de sua experiência nacional e internacional, dá para dizer que os seminários que acontecerão em Bonito agregarão para a perícia brasileira e na América do Sul?

Wilson Toresan Jr. – Teremos participação de Peritos vindos de alguns países da América do Sul e Estados Unidos. O XII Seminário Nacional de Identificação de Veículos e o XI Seminário Nacional de Crimes de Trânsito são eventos importantíssimos para os Peritos que desenvolvem atividades nestas áreas. Serão apresentados e discutidos temas relevantes, assim como casuísticas.

Na minha opinião, será um evento histórico para a perícia brasileira. Pela primeira vez, teremos um evento com a realização de crash tests, não deixando nada a desejar com relação aos eventos internacionais realizados nos Estados Unidos, Canadá e Europa, que são regiões que se destacam nesta área pericial.

Como se já não bastasse, ainda teremos a participação de um perito que é uma verdadeira lenda na área de reconstrução de acidentes de trânsito: Rusty Haight. Imperdível!

A Associação Brasileira de Criminalística, os Peritos do Mato Grosso do Sul e demais profissionais que participaram desta “empreitada” estão de parabéns pela organização deste grande evento!

Hoje quais são os desafios que a perícia encontra no trabalho de análise em acidentes de trânsito?

Wilson Toresan Jr. – Temos um longo caminho pela frente para atingirmos o estado da arte. Os peritos brasileiros, e da América do Sul em geral, estão muito defasados com relação as metodologias mais complexas e às tecnologias disponíveis para a Reconstrução de Acidentes de Trânsito.

Para dar um exemplo, não possuímos bancos de dados de variáveis importantes que necessitamos nos cálculos de velocidade para os veículos envolvidos em acidentes de trânsito. Utilizamos valores e tabelas de veículos estrangeiros, que nem sempre representam de forma satisfatória nossos veículos.

Outro assunto, que me chama muito a atenção, é a visão pouco científica com que lidamos com as incertezas das variáveis que utilizamos em nossos cálculos. As ferramentas estatísticas, amplamente utilizadas nos Estados Unidos e Europa para este fim, praticamente são desconhecidos entre os peritos brasileiros. Temos que reverter estas situações!

Necessitamos de mais eventos como este que será realizado em Bonito/MS, o desenvolvimento de mais pesquisas, cursos de capacitação e investimentos na compra de ferramentas com tecnologia agregada, isto é, instrumentação, softwares, drones, scaner 3d ,….

O lado positivo de tudo isto é que vejo um grande potencial humano na perícia brasileira e sou muito otimista no que diz respeito ao nosso desenvolvimento. Com trabalho e dedicação acredito que poderemos atingir um nível excelente de resultados nos exames periciais de Reconstrução de Acidentes de Trânsito.

Os seminários
 
Inscrições podem ser feitas no site oficial dos seminários. Veja também a programação completa dos seminários, que terá palestrantes nacionais e internacionais, além de atividades práticas.